ARY

Besame, besame mucho,
Como si fuera esta noche la ultima vez...
Besame, besame mucho,
Que tengo miedo perderte, perderte despues...

Quiero tenerte muy cerca,
Mirarme en tus ojos y estar junto a ti,
Piensa que tal vez mañana,
Estare muy lejos, muy lejos de aqui...

 

Meu amigo, você era mesmo um sentimental... Dançar com a sua Jurema ao som de Besame Mucho e morrer no minuto seguinte...que jeito mais escandalosamente romântico de morrer!  Aposto que você colou seu rosto ao dela, deu um apertão na cintura, cheirou aquele perfume que te inebriou por mais de cinquenta anos, deu um giro no tempo em direção ao primeiro mão-na-mão, ao primeiro beijo, à primeira noite e, na certeza de que havia sorvido da vida o que ela, a vida, tem de melhor, acenou seu adeus.   

Eu estou aqui, de pé, te aplaudindo!

 

Este é um tributo ao meu amigo Ary Ignatios, que  nos deixou, gloriosamente, num sábado de Aleluia.Deixou também muita saudade e, junto dela, uma pontinha de inveja.

Uma viagem ao inferno

Uma viagem ao inferno

Começa com uma ponta de tristeza, uma coisa mal definida, de contornos imprecisos, uma dorzinha que belisca a alma, que esmaece as cores e passa a forçar a saída de lágrimas furtivas que mais à frente vão virar uma torrente incontrolável.

A viagem começa. Na terceira classe de um trem fantasma, que desce e desce, sempre mais fundo,  pelos subterrâneos da mente, da alma, dos sentimentos, das dores, do desespero, do inominável. Jornada tétrica, da qual não adianta tentar sair, não antes do trem completar sua cruel viagem, sem paradas, em direção ao abismo das angústias, tristezas e  incertezas que a essa altura já estão a esmagar o peito num arremedo do garrote vil da Idade Média. Tudo escurece, o sofrimento aumenta, aumenta, aumenta, até ficar insuportável. A vontade é morrer, e mesmo esse desejo, tão anti-natural, é compartilhado com o pavor de que a morte pode não trazer alívio algum, afinal o outro lado pode ser ainda pior.  A duração da viagem varia. Dias, semanas, meses. Já experimentei as mais variadas extensões desse percurso infernal. Acabo de voltar de um deles. Poucos dias desta vez, mas o suficiente para me fazer sentir exausta, corpo e alma exauridos, além da sensação de que o abismo fica mais fundo a cada viagem. Uma experiência sempre muito solitária, sempre aterrorizante. Não é de hoje que essas viagens acontecem, já houve muitas outras,  mas a última parece sempre ter sido a pior. Desta vez eu estou me sentindo mais fraca, mais cansada. Cansada da luta de uma vida contra um inimigo invisível que de tempos em tempos pilota um trem no qual eu nunca quis embarcar, mas que quando dou por mim já estou em plena viagem. O próximo embarque não tenho idéia quando será. Não quero mais viajar, mas isso não faz a menor diferença, o trem sempre para na plataforma, eu sempre tenho a passagem de ida e, por enquanto, a de volta.    

Viagens

Tem dias que a gente se sente como quem viajou. Hoje estou assim. Estava molhando minhas plantas, neste sábado de carnaval sob um calor senegalês, e comecei a "conversar" mentalmente com o meu chefe. Assuntos de trabalho, dei-lhe notícias da virose que me pegou há dois dias, ouvi o que ele disse, regador na mão,  ia continuar a conversa imaginária quando o telefone tocou. Tinha certeza absoluta de que era ele. E era. E olhe que, como boa taurina, não sou dada a esse tipo de "insight".

Pouco mais de uma hora depois, outra viagem. Desta vez ao passado, coisa de uns 14 anos atrás. Uma conversa com minha irmã, no rádio uma música do Ray Charles que nós duas achamos absolutamente maravilhosa, mas da qual não sabíamos o nome, e que minha irmã ficou de descobrir e nunca mais voltou ao assunto, e eu nunca mais  ouvi.  Eu sabia que no dia em que ouvisse a canção novamente a reconheceria de imediato. Como eu havia comprado há um tempo um CD do Ray Charles, tipo coletânea, e que estava ainda fechado no plástico, resolvi ouvir. Com as lembranças voltando, abro o CD,  ponho para tocar, ouço Sweet Memories, Yesterday, Eleanor Rigby, até chegar na faixa 14. Lá estava ela: That Lucky Old Sun Just Rolls Around Heaven.

Aqui vai a letra

That Lucky Old Sun Just Rolls Around Heaven All Day (Jonny Cash)

Up in the mornin', out on the job
Work like the devil for my pay.
But that lucky old sun has nothin' to do
But roll around heaven all day.

Had a fuss with my woman, an' I toil for my kids,
An' I sweat 'til I'm wrinkled and gray,
While that lucky old sun got nothin' to do
But roll around heaven all day.
Oh, Lord above, don't you hear me cryin'
Tears are rollin' down my eyes.
Send in a cloud with a silver linin',
Take me to paradise.
Show me that river, Take me across,
wash all my troubles away
Like that lucky old sun give me nothing to do
But roll around heaven all day.

 

QUITÉRIA

Minhas andanças pelo centro de São Paulo são frequentes. Hoje, ao passar pela praça Patriarca, conheci a Quitéria. Pernambucana, varredora de rua, já passada dos cinquenta, olhos de um azul mais claro que o mar de Pernambuco, aquele azul desmaiado herdado certamente de algum conterrâneo de Mauricio de Nassau.

Na praça Patriarca existe uma igreja. Cercada de grades, como tudo o mais em São Paulo. Entre a grade e a porta uma caixa de papelão servia de abrigo a um filhote de pombo. Uma porção de arroz cozido e um pote de água mostravam que alguém estava cuidando do bicho. Como sou “bichóloga” convicta, parei para olhar. Foi quando a Quitéria se aproximou:

-Pois é, dona, eu tô tratando desse bichinho desde que ele caiu do ninho, ainda novinho. O padre já reclamou, não quer pombos na porta da igreja, mas onde mais eu deixo o pobrezinho?

-O padre, logo o padre, não quer o filhote aqui? Mas logo o bichinho fica adulto e voa, mesmo assim o padre não quer? – perguntei eu, pensando em como um padre, representante do Criador na Terra, poderia se recusar a dar abrigo a uma das criaturas do Todo-Poderoso, ainda que a dita criatura fosse um simples filhote de pombo que logo cresceria e voaria.

-É assim mesmo, dona, as pessoas são más (ela não disse, mas senti que incluía o padre no rol das criaturas malignas), outro dia quebraram a asa do pobrezinho. Mas eu tratei dele e o bichinho já tá quase bom.

-E você traz a comida? Vejo que o cardápio hoje é arroz cozido.

-Trago sim, não só para ele, eu sempre acudo os bichinhos que o povo abandona por aqui. Outro dia largaram uma cachorra, grávida, sem pelo, só sarna, precisava ver, dona. Levei pra casa (a Quitéria mora em Itaquera), comprei remédio, tratei, os cachorrinhos nasceram e eu esperei eles ficarem gordinhos, a mãe também, aí arranjei casa pra todos eles. O pessoal sabe que eu cuido, então é um tal de abandonar bicho na minha porta, no momento estou cuidando de doze cachorros.

Despedi-me da Quitéria, que continuou a varrer a praça com um olho na vassoura e outro no pombo abrigado na caixa. Eu já tinha virado as costas e começado a caminhar quando ela me chamou:

-Dona, sabe de uma coisa? Bicho é melhor do que gente!

Difícil não concordar com a Quitéria. Minha descrença no ser humano só é amenizada quando eu encontro a esperança,  que às vezes surge nas formas mais surpreendentes. Por exemplo, na forma de uma varredora de rua que, além de lindos olhos azuis, tem dentro do peito um coração generoso e na alma uma beleza da qual ela mesma não se dá conta.

DE VENTOS, DE BRISAS E DE SOMBRAS

O que fazer numa noite quente em que os pensamentos misturam Saara com cerveja, jeans e camiseta com roupa nenhuma, céu azul com chuva, sei lá, qualquer coisa que suavize a sensação de que o corpo vai derreter e levar o espírito junto? Ouvir Kathleen Battle e olhar o movimento da cortina batendo na janela?  Pode ser, mas tenho a impressão que melhor mesmo seria sair daqui, deixar para trás primaveras de 35 graus e ir em busca de temperaturas mais amenas, de vento que obriga a levantar a gola do casaco, de brisa fria, daquela que dá arrepio quando sopra, quem sabe também um mar encrespado, um pequeno pedaço do Pacífico batendo numa ilha dos mares do sul.

Acho que o desejo de estar perto de coisas tão distantes da minha realidade está sendo estimulado pela Kiri Te Kanawa cantando canções maori.   Acho que corro o risco de ser a única pessoa a ouvir música maori numa noite escaldante em São Paulo.  A sensação é de saudade de um lugar em que nunca estive, mas onde queria muito estar.

Canções maori, desejo de estar longe daqui, tudo isso me remete a uma certa urgência de mudança com a qual eu não sei lidar. Mas sinto que tenho que aprender rápido, pois não há muito tempo. Preciso clarear de alguma forma essa zona de sombra que se faz sentir mas não se deixa mostrar.

Não sei como nem por onde começar. Só sei que preciso. E sei também que esta é uma batalha minha e de ninguém mais. Sei que somente os meus passos poderão me levar na direção em que sopra o vento que não é este que entra pela minha janela agora.  Ele existe e sopra longe daqui, no mesmo lugar onde sopra a brisa fria que eu preciso encontrar.  

MARTA X KASSAB

Quando ouvi pelo rádio a primeira propaganda da Marta neste segundo turno, achei que o mundo estava ao contrário. A Marta, tão moderna, tão liberada, usando o horário eleitoral gratuito para insinuar que o prefeito Kassab é gay? Achei que a queda da bolsa e a alta do dólar haviam afetado os neurônios dos marqueteiros petistas e os da candidata. A tal propaganda só tinha que dar no que deu: um bafafá enorme na imprensa, com protestos inclusive dos gays, tradicionais apoiadores da ex-prefeita. 

Que tiro no pé, que burrada dos petistas! Cada vez mais me convenço de que petistas são como ratazanas que viveram a vida toda no esgoto, até o dia em que alguém levantou a tampa do bueiro. Fora do habitat natural, passaram inclusive a tomar Romanée Conti, mas o hábito de roer acaba sempre falando mais alto e, mais cedo ou mais tarde, as ratazanas cravam os dentes num cabo de alta tensão e aí é aquele estrago, apagão geral e faísca voando para tudo quanto é lado.  

Será que não passa pela cabeça da Marta e dos petistas que a população de São Paulo, ao dar maioria ao Kassab no primeiro turno, não quer saber se o cara é gay ou não, mas quer sim, um administrador competente para tocar uma cidade tão caótica?

Eu rezo para que o PT seja mesmo derrotado, que o Kassab continue a fazer o trabalho dele na santa paz, que a ratazanas petistas nunca mais se recuperem do fiasco, que um dia voltem definitivamente para o bueiro de onde nunca deveriam ter saído, e que nós, paulistanos, não tenhamos que aguentar, além do trânsito, da violência e da poluição, a Marta na prefeitura e um  "primeiro damo" argentino! Vade retro! Amém. 

JOÃO CARLOS MARTINS

Tocar piano com apenas 3 dedos é um espetáculo comovente para quem assiste. E quando quem toca é João Carlos Martins, a comoção vem acompanhada de puro deleite. Martins é um brasileiro genial, mais conhecido lá fora do que aqui. Depois de vários acidentes que paralisaram suas duas mãos, interrompeu uma carreira gloriosa como pianista clássico e foi aprender a reger. Hoje comanda a Orquestra Bachiana Filarmônica e faz um trabalho absolutamente maravilhoso nas periferias e em cidades do interior. Formou a Orquestra Bachiana Jovem, a Bachianinha, que se apresenta gratuitamente em escolas e em locais como a Febem, para levar a música àqueles que não teriam acesso a ela de outra forma, além de revelar jovens talentos vindos das classes menos favorecidas da população.

Clique nos links abaixo, abra o seu coração e deixe a emoção tomar conta.

http://www.youtube.com/watch?v=ytaHSjEf2dk               http://www.youtube.com/watch?v=9flhH-lfDmo

Lavadora quebrada, nostalgia e Escócia

Acordei nostálgica hoje. Deve ser por conta da lavadora quebrada, cheia de roupas de molho,  ao lado de um tanque minúsculo... bem, a saudade devastadora que me acomete após uma semana sem carregar no colo meu sobrinho Gabriel também contribui para esse estado de espírito. Não estou falando de tristeza, mas de nostalgia, uma mistura delicada e quase doce de saudade e lembranças.  Sei lá por que razão a Escócia me veio à cabeça, uma vontade de ver de novo o Lago Ness,  uma vontade de atravessar uma certa pontezinha que dá em frente a uma lojinha que vende uns biscoitos recheados de creme de gengibre.  Google na tela, lá vou eu viajar até Fort Augustus, no coração das Highlands. Lá está a antiga Abadia de São Benedito, transformada em hotel, onde dormi uma noite de volta no tempo, onde tomei o café da manhã num salão imenso no qual a entrada de passarinhos era permitida e com eles os hóspedes dividiam migalhas de pão, e não raro abaixavam a cabeça para desviar das rasantes dos robins (aqueles passarinhos que aparecem nos cartões de Natal) mais afoitos.  Acho que o Gabriel iria adorar a experiência, a roupa ia ficar esquecida na máquina e a nostalgia voltaria, doce, com um gosto irresistível de creme de gengibre.  

Esta é a pequena Fort Augustus:

Esta é a antiga abadia, transformada em hotel:

Sanfona, carro, mulher e arma, nessa ordem

Confesso,  sou fã da Ana Maria Braga, vejo a abertura do programa da moça todas as manhãs antes de sair para o trabalho. E hoje vi uma coisa engraçada, de tão bizarra. A matéria era sobre um garoto de João Alfredo, Pernambuco (a terra do Severino Cavalcanti), sanfoneiro, estudioso, bom filho, etc. e tal. Não tive tempo de ver a reportagem  até o fim, mas vi a entrevista do avô do menino, que empresta a sanfona para o neto- só para o neto, ele fez questão de frisar- e que diante da câmera soltou esta pérola: “Sanfona, carro, mulher e arma (nessa ordem) são coisas que não se empresta”!   Daí me lembrei do inesquecível Severino, nos áureos tempos em que era presidente da Câmara, falando da própria cônjuge: “Amélia é minha senhora, uma mulher de valor, que me serviu durante todos esses anos”.

Portanto, valorosa mulher dos grotões nordestinos, não desanime. Você só será emprestada, e a contragosto, depois que a arma pendurada na cinta do seu cabra parceiro tiver sido levada. E continue a servir ao seu macho, pois vai que um dia ele vira um político famoso e você será glorificada pelos serviços prestados. Mas não queira ser mais do que uma reles coisa, que aí já é pedir demais. E nem pense em competir com o carro e a sanfona!

 

SEM PALAVRAS...

UM ANJO CHAMADO GABRIEL

Eu há muito deixei de rezar, há muito deixei de pedir, há muito deixei minhas crenças escorregarem para uma espécie de limbo, mas cujo véu ainda costumo levantar quando quero agradecer. Agradeço por cada coisa boa que me acontece, seja ela qual for, mesmo não sabendo a quem dirigir os meus “obrigados”. Nessas ocasiões tento tirar do baú empoeirado da minha fé puída algo ou alguém a quem dizer: valeu, obrigada. Insisto, sempre na esperança de que o agradecimento seja ouvido, seja lá por quem for.

E talvez por ainda não ter aterrado o pântano das minhas crenças, talvez por ter deixada aberta a porta do agradecimento reconhecido, talvez por outra razão qualquer, ou porque a vida é assim mesmo, eu ganhei um presente. Um presente tardio, que chegou  quando a maior parte da minha estrada já foi percorrida, e que foi, que é,  talvez por isso mesmo, muito especial.

Uma coisinha miúda, que ri muito, que faz manha, que se diverte na hora do banho, que arranca brincos de orelhas desavisadas, que fica lindo de boné, que melhora de humor milagrosamente quando percebe que vai passear, um pedacinho de gente que  se mostrou corajoso e valente desde muito cedo. Uma verdadeira fábrica de surpresas e uma fonte inesgotável de ternura.

O meu agradecimento hoje é para a vida e para um anjo chamado Gabriel.

Convivendo com a dor

Conviver com  a dor. Este tem sido um aprendizado que a vida decidiu me impor de uns anos para cá.  Não bastassem as dores do espírito cujos primeiros sinais apontaram (literalmente) no horizonte dos meus verdes anos na forma de  pores-de-sol que me traziam uma angústia indescritível e me faziam procurar refúgio dentro de casa, de preferência com a  luz acesa para não ver o lusco-fusco que precede o anoitecer.

O tempo passou e com ele muitos anoiteceres, que hoje já não me matam de angústia. Mas outras dores vieram. Fibromialgia, pinçamentos vários, artrose degenerativa, bursites diversas, cefaléias que duram uma semana e não se deixam abater por nenhum arsenal de analgésicos. Assim tem sido e receio que assim será até que o meu dia chegue.

Hoje tenho preocupações e cuidados que nunca tive. Por exemplo, alongar antes de sair à rua. Caminhar sem alongar, nem pensar. Levantar da cama, então,  não pode ser assim sem mais nem menos. É preciso virar de lado, apoiar o peso do corpo no cotovelo, colocar os pés no chão, tomar impulso  e então levantar. E por aí vai. E quando nenhum desses cuidados é capaz de evitar uma crise, lá vou eu de injeção de corticóide, Tramal, bolsa de água quente, e, em último caso, o pronto-socorro do Hospital 9 de Julho.  

Muitas vezes me pego pensando e tentando mensurar o que dói mais, se as dores do espírito, ou as dores do corpo. Não cheguei a conclusão nenhuma por enquanto, mas estou seriamente inclinada a achar que cada uma tem o seu lugar na escala de intensidade e de capacidade de machucar mais fundo.  Um pôr-do-sol para uma menininha angustiada doía tanto quanto um quadril com artrose? Juro que ainda não sei a resposta.  Só sei que ambos doem. Acender a luz para apagar o pôr-do-sol lá fora, tomar um Tramal quando a fibromialgia ataca... qual a diferença?  Não sei. O que sei neste exato momento é que é hora de levantar da frente deste teclado e me exercitar um pouco porque as costas estão doendo.

Pastores da Insônia

Não tenho Tv a cabo. E tenho insônia. Combinação malfadada que freqüentemente termina na sessão descarrego da Igreja Universal, na pregação do R.R. Soares e, ultimamente, num inacreditável “bispo” de uma ainda mais inacreditável “Igreja Mundial do Poder de Deus”. Não é que o cara resolveu inovar a cobrança do dízimo? Ao invés do fiel entregar à tal igreja 10% de tudo o que ganha, entrega 20%. O “bispo” explica: 10% já pertencem a Deus. Portanto, o fiel merecedor desse título dobra a porcentagem e a coisa fica assim: 10%  para Deus (que já são do Todo Poderoso de qualquer maneira)  e 10%  para a igreja.   

Minha primeira reação foi rir. Achei uma tremenda graça na cara de pau do tal bispo. Mas depois comecei a pensar no assunto e aí perdi o sono de vez. Já pensou se o Lula –ou qualquer um dos seus incontáveis puxa-sacos – de repente perde o sono, resolve zapear a TV e dá de cara com o tal bispo dos 20%?  Estaremos todos fritos e muitíssimo mal pagos. Vão se apoderar da idéia do bispo, transformá-la em projeto de lei, que será aprovado, e lá vamos nós pagar impostos em dobro, uma vez que a montanha de dinheiro que já entregamos ao governo seria considerada mero dízimo a ser obrigatoriamente colocado no altar da pátria.

Hoje à noite vou procurar o tal bispo na TV na esperança de que ele não exista e que tudo tenha sido só um pesadelo.

Terra adorada

Como todo mundo, assisti a pelos menos parte das Olimpíadas de Pequim. Não vi a abertura, apenas flashes no noticiário.  Tudo muito grandioso, imponente, tecnológico. Mas nada que me fizesse esquecer o urso russo chorando no encerramento dos jogos de Moscou.

Bem, mas o assunto não é esse, quero dizer, não são as aberturas olímpicas .

De tudo o que vi, o que mais me impressionou foi a Maurren Maggi no pódio. Medalha de ouro, aplausos merecidos, e o choro. Ah, o choro. Isso sim,  me emocionou. Começa o hino, a nossa Maurren fecha os olhos, canta junto, até chegar ao “terra adorada”.  Nesse ponto ela abaixa a cabeça e chora copiosamente.  Emoção pura, brasilidade, orgulho de ser o que é, de ser quem é.

Sei que os motivos que temos para nos orgulhar de sermos brasileiros são cada dia mais escassos. É triste. Nossos ídolos são movidos, em grande parte, a dinheiro (muito dinheiro),  mansões/carros/barcos nababescos, noitadas, isso até pegarem a estrada da decadência (milionária, é claro).  

Por essas e outras o choro da Maurren me emocionou tanto.  A “terra adorada”  está carente. Carente de filhos amorosos, carente de valores, carente de respeito.  Mas ainda existe uma Maurren que chora, que desaba de emoção... terra adorada, dentre outras mil, és tu Brasil, ó pátria amada...

Obrigada, Maurren.

Um poeta atravessou o meu caminho

 

Mais de 2 anos longe deste blog! Falta de ânimo, preocupações mil,  falta de inspiração, motivos não faltaram. Mas hoje esbarrei num poeta. Ou melhor, fui esbarrada por ele. Quando dei por mim estava com uns poemas na mão esquerda,  enquanto  a direita tentava achar um “café simbólico” (palavras do poeta) na minha bolsa.  Moedas trocaram de mãos, poemas também. Cores, Estradas, Moça, Rochas, Recado, O nome da flor, O sapo. Fui das cores ao sapo engraxado e voltei às estradas de um trem sem trilhos, de passarinhos com trombas e de andarilhos alados.  Bom demais viajar pelos versos do Tony Luiz:

 

Estradas

 

A você, ilustre sabido,

Que interrogou o meu fim,

Digo que não sei saber a vida

Que levam os ladrões e as mendigas;

Mas sei dum trem sem trilhos

Que corrompe alguns caminhos

Pondo trombas em passarinhos

E asas em andarilhos.

 

Antonio Luiz Junior

 

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