Conviver com a dor. Este tem sido um aprendizado que a vida decidiu me impor de uns anos para cá. Não bastassem as dores do espírito cujos primeiros sinais apontaram (literalmente) no horizonte dos meus verdes anos na forma de pores-de-sol que me traziam uma angústia indescritível e me faziam procurar refúgio dentro de casa, de preferência com a luz acesa para não ver o lusco-fusco que precede o anoitecer.
O tempo passou e com ele muitos anoiteceres, que hoje já não me matam de angústia. Mas outras dores vieram. Fibromialgia, pinçamentos vários, artrose degenerativa, bursites diversas, cefaléias que duram uma semana e não se deixam abater por nenhum arsenal de analgésicos. Assim tem sido e receio que assim será até que o meu dia chegue.
Hoje tenho preocupações e cuidados que nunca tive. Por exemplo, alongar antes de sair à rua. Caminhar sem alongar, nem pensar. Levantar da cama, então, não pode ser assim sem mais nem menos. É preciso virar de lado, apoiar o peso do corpo no cotovelo, colocar os pés no chão, tomar impulso e então levantar. E por aí vai. E quando nenhum desses cuidados é capaz de evitar uma crise, lá vou eu de injeção de corticóide, Tramal, bolsa de água quente, e, em último caso, o pronto-socorro do Hospital 9 de Julho.
Muitas vezes me pego pensando e tentando mensurar o que dói mais, se as dores do espírito, ou as dores do corpo. Não cheguei a conclusão nenhuma por enquanto, mas estou seriamente inclinada a achar que cada uma tem o seu lugar na escala de intensidade e de capacidade de machucar mais fundo. Um pôr-do-sol para uma menininha angustiada doía tanto quanto um quadril com artrose? Juro que ainda não sei a resposta. Só sei que ambos doem. Acender a luz para apagar o pôr-do-sol lá fora, tomar um Tramal quando a fibromialgia ataca... qual a diferença? Não sei. O que sei neste exato momento é que é hora de levantar da frente deste teclado e me exercitar um pouco porque as costas estão doendo.
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