Tem dias que a gente se sente como quem viajou. Hoje estou assim. Estava molhando minhas plantas, neste sábado de carnaval sob um calor senegalês, e comecei a "conversar" mentalmente com o meu chefe. Assuntos de trabalho, dei-lhe notícias da virose que me pegou há dois dias, ouvi o que ele disse, regador na mão, ia continuar a conversa imaginária quando o telefone tocou. Tinha certeza absoluta de que era ele. E era. E olhe que, como boa taurina, não sou dada a esse tipo de "insight".
Pouco mais de uma hora depois, outra viagem. Desta vez ao passado, coisa de uns 14 anos atrás. Uma conversa com minha irmã, no rádio uma música do Ray Charles que nós duas achamos absolutamente maravilhosa, mas da qual não sabíamos o nome, e que minha irmã ficou de descobrir e nunca mais voltou ao assunto, e eu nunca mais ouvi. Eu sabia que no dia em que ouvisse a canção novamente a reconheceria de imediato. Como eu havia comprado há um tempo um CD do Ray Charles, tipo coletânea, e que estava ainda fechado no plástico, resolvi ouvir. Com as lembranças voltando, abro o CD, ponho para tocar, ouço Sweet Memories, Yesterday, Eleanor Rigby, até chegar na faixa 14. Lá estava ela: That Lucky Old Sun Just Rolls Around Heaven.
Aqui vai a letra
That Lucky Old Sun Just Rolls Around Heaven All Day (Jonny Cash)
Up in the mornin', out on the job
Work like the devil for my pay.
But that lucky old sun has nothin' to do
But roll around heaven all day.
Had a fuss with my woman, an' I toil for my kids,
An' I sweat 'til I'm wrinkled and gray,
While that lucky old sun got nothin' to do
But roll around heaven all day.
Oh, Lord above, don't you hear me cryin'
Tears are rollin' down my eyes.
Send in a cloud with a silver linin',
Take me to paradise.
Show me that river, Take me across,
wash all my troubles away
Like that lucky old sun give me nothing to do
But roll around heaven all day.
Minhas andanças pelo centro de São Paulo são frequentes. Hoje, ao passar pela praça Patriarca, conheci a Quitéria. Pernambucana, varredora de rua, já passada dos cinquenta, olhos de um azul mais claro que o mar de Pernambuco, aquele azul desmaiado herdado certamente de algum conterrâneo de Mauricio de Nassau.
Na praça Patriarca existe uma igreja. Cercada de grades, como tudo o mais em São Paulo. Entre a grade e a porta uma caixa de papelão servia de abrigo a um filhote de pombo. Uma porção de arroz cozido e um pote de água mostravam que alguém estava cuidando do bicho. Como sou “bichóloga” convicta, parei para olhar. Foi quando a Quitéria se aproximou:
-Pois é, dona, eu tô tratando desse bichinho desde que ele caiu do ninho, ainda novinho. O padre já reclamou, não quer pombos na porta da igreja, mas onde mais eu deixo o pobrezinho?
-O padre, logo o padre, não quer o filhote aqui? Mas logo o bichinho fica adulto e voa, mesmo assim o padre não quer? – perguntei eu, pensando em como um padre, representante do Criador na Terra, poderia se recusar a dar abrigo a uma das criaturas do Todo-Poderoso, ainda que a dita criatura fosse um simples filhote de pombo que logo cresceria e voaria.
-É assim mesmo, dona, as pessoas são más (ela não disse, mas senti que incluía o padre no rol das criaturas malignas), outro dia quebraram a asa do pobrezinho. Mas eu tratei dele e o bichinho já tá quase bom.
-E você traz a comida? Vejo que o cardápio hoje é arroz cozido.
-Trago sim, não só para ele, eu sempre acudo os bichinhos que o povo abandona por aqui. Outro dia largaram uma cachorra, grávida, sem pelo, só sarna, precisava ver, dona. Levei pra casa (a Quitéria mora em Itaquera), comprei remédio, tratei, os cachorrinhos nasceram e eu esperei eles ficarem gordinhos, a mãe também, aí arranjei casa pra todos eles. O pessoal sabe que eu cuido, então é um tal de abandonar bicho na minha porta, no momento estou cuidando de doze cachorros.
Despedi-me da Quitéria, que continuou a varrer a praça com um olho na vassoura e outro no pombo abrigado na caixa. Eu já tinha virado as costas e começado a caminhar quando ela me chamou:
-Dona, sabe de uma coisa? Bicho é melhor do que gente!
Difícil não concordar com a Quitéria. Minha descrença no ser humano só é amenizada quando eu encontro a esperança, que às vezes surge nas formas mais surpreendentes. Por exemplo, na forma de uma varredora de rua que, além de lindos olhos azuis, tem dentro do peito um coração generoso e na alma uma beleza da qual ela mesma não se dá conta.
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