Uma viagem ao inferno
Começa com uma ponta de tristeza, uma coisa mal definida, de contornos imprecisos, uma dorzinha que belisca a alma, que esmaece as cores e passa a forçar a saída de lágrimas furtivas que mais à frente vão virar uma torrente incontrolável.
A viagem começa. Na terceira classe de um trem fantasma, que desce e desce, sempre mais fundo, pelos subterrâneos da mente, da alma, dos sentimentos, das dores, do desespero, do inominável. Jornada tétrica, da qual não adianta tentar sair, não antes do trem completar sua cruel viagem, sem paradas, em direção ao abismo das angústias, tristezas e incertezas que a essa altura já estão a esmagar o peito num arremedo do garrote vil da Idade Média. Tudo escurece, o sofrimento aumenta, aumenta, aumenta, até ficar insuportável. A vontade é morrer, e mesmo esse desejo, tão anti-natural, é compartilhado com o pavor de que a morte pode não trazer alívio algum, afinal o outro lado pode ser ainda pior. A duração da viagem varia. Dias, semanas, meses. Já experimentei as mais variadas extensões desse percurso infernal. Acabo de voltar de um deles. Poucos dias desta vez, mas o suficiente para me fazer sentir exausta, corpo e alma exauridos, além da sensação de que o abismo fica mais fundo a cada viagem. Uma experiência sempre muito solitária, sempre aterrorizante. Não é de hoje que essas viagens acontecem, já houve muitas outras, mas a última parece sempre ter sido a pior. Desta vez eu estou me sentindo mais fraca, mais cansada. Cansada da luta de uma vida contra um inimigo invisível que de tempos em tempos pilota um trem no qual eu nunca quis embarcar, mas que quando dou por mim já estou em plena viagem. O próximo embarque não tenho idéia quando será. Não quero mais viajar, mas isso não faz a menor diferença, o trem sempre para na plataforma, eu sempre tenho a passagem de ida e, por enquanto, a de volta.
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